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uma tensão hoje

por Eler

Minha visão do cristianismo hoje muda todo dia. Nos útlimos três anos, acho, ela se tornou bem fluida. Acho que foram os três anos em que, mais que nunca, descobri que só posso viver o evangelho no mundo. Com isso, vêm os problemas. Porque sempre disseram que tudo o que tem no mundo é contra Deus, é do diabo, e não presta pra nada. Só que eu tenho que estudar, e não é mais no saudoso Colégio Presbiteriano, de Governador Valadares. Eu tenho amigos, e eles não são só os amigos crentes da UPA. Eu tenho que aprender, e não é a ordem dos livros na escola dominical.

A gente descobre, mais dia, menos dia, que o mundo não é preto-no-branco. A gente até descobre o que significa maniqueísmo, porque sabe o quanto essas simplificações são perigosas.

Antes eu tinha a resposta para tudo. Fumar maconha? Ah, ninguém nunca ia ter coragem nem de me oferecer, porque sabem o que EU SOU! Mitologia grega? Paganismo! Filosofia? Qual a importância dela se já sei que o fim do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”? Evolucionismo? Impossível aceitar que Darwin estivesse certo em uma linha qualquer, se na Bíblia diz que o homem foi criado. Ciência? Um instrumento que só comprova o que a religião já diz. Socialismo? Um sistema autoritário e perseguidor da Igreja. As outras igrejas? Pouco conhecem de bíblia, ou não diriam tanta besteira. Os ateus? Insensíveis amorais (confesso: na época, talvez nem soubesse o que era amoral). A pós-modernidade? O tempo em que o mundo se esqueceu de Deus, e em que as pessoas perderam a referência.

Mas aí descobri: é o tempo em que vivo. Onde vou ser cristão, se não no mundo? Qual o proveito têm as pedras e as plantas na sabedoria dos monges ascetas? Como vou negar tudo aquilo que ajudou a formar minha consciência, que explica o mundo em que devo viver? Parece que a tensão é nova e, por isso, não temos resposta. Talvez não seja.

Em resumo, os apologistas* dão testemunho da tensão em que vivem os cristãos dos primeiros séculos. Ao mesmo tempo que rejeitam o paganismo, têm de enfrentar o fato de que esse paganismo produziu uma cultura valiosa. Ao mesmo tempo que aceitam a verdade que encontram nos filósofos, insistem na superioridade da revelação cristã. Ao mesmo tempo que se negam a adorar ao imperador, e esse mesmo imperador os perseguem continuam orando por ele e admirando a grandeza do Império Romano. As seguintes linhas do ‘Discurso a Diogneto’ descrevem admiravelmente essa tensão:

“Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linguagem nem por seus costumes (…). Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam encontram sua pátria, mas sua pátria não está em nenhum lugar (…). Se encontram na carne, mas não vivem segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos dos céus. Obedecem todas as leis, mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem (Discurso a Diogneto, 5:1-11)”

[In GONZALEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Mártires (vol. 1), p.94.]

Qual a resposta, afinal? A síntese da nossa história, enquanto cristãos, é a forma com que Deus se revelou a nós, plenamente, em seu Filho, Cristo Jesus. Ele se relacionou conosco, enquanto ainda vivíamos para o mundo (e estávamos mortos para Deus).

Se hoje estamos no caminho, é por ele. E não interessa que o caminho seja uma estrada celestial. O caminho é Cristo e o caminho é aqui. Cristianismo autista não serve para nada.


*Apologistas eram os homens que se dedicavam a defender os cristãos, no início da Igreja, em meio a ataques de cidadãos romanos e intelectuais, em tempos de perseguição ou de paz.