Arquivo para outubro \02\UTC 2009

Opinião: A Cabana

por Jotapê
[Antes de tudo, pedimos desculpas pelo abandono desse espaço. Queremos voltar à atividade com maior frequência. Pessoalmente, ressalto ainda que essa é apenas a minha visão sobre o livro, o que tenho pensado a respeito dele. Quero agradecer às horas de conversa extremamente produtivas com Paulo, Patrícia, Joice e Felipe Vellozo, que me ajudaram a pensar a respeito. São sempre ótimas companhias.]

Recentemente li A Cabana, de William P. Young. Li por curiosidade, por esse livro constar já há algum tempo na lista dos mais vendidos, e por já ter ouvido alguns comentários a respeito dele. Confesso que li já com algum preconceito, e talvez por isso minha leitura tenha sido bastante difícil. Achei o livro, de uma forma geral, mal escrito. Essa impressão pode ter se agravado pela certeza de uma tradução também ruim, que dificulta a leitura. O personagem principal, Mack, me pareceu um pouco artificial, apesar de ao mesmo tempo ser alguém com quem todos podemos nos identificar. As cenas são por vezes surreais, por vezes piegas (mas por vezes boas, também). A representação de Deus é, no mínimo, controversa; tive grande dificuldade em ler cada fala atribuída a Deus, pensando se Ele realmente diria aquilo. Entendo a opção do autor, para quebrar possíveis estereótipos ou imagens pré-concebidas que as pessoas tem de Deus, mas não sei se faria a mesma opção. Outra questão é um aparente universalismo, que parece indicar que “todos os caminhos levam a Deus”, ou que “todos somos filhos de Deus”. Mas são questões com as quais basta um pouco de cuidado durante a leitura, e não se apresentarão como grandes problemas.
Depois que terminei de ler, pude refletir um pouco a respeito da mensagem que o livro quer passar. A mensagem é sem dúvida boa, e a história traz uma série de declarações, às vezes soltas num diálogo, que podem trazer profundas reflexões. A questão da liberdade do homem e da justiça de Deus é tratada com muita sensibilidade, e sugere boas saídas para perguntas muito delicadas. Contudo, uma das coisas que mais me impressionou é o grande número de pessoas que dizem ter suas vidas mudadas após a leitura do livro. Isto porque, para mim, as grandes verdades ali ditas eram na verdade paráfrase do que a Bíblia há muito já diz. E muitas vezes surgem livros, como A Cabana ou O Monge e O Executivo, que fazem um sucesso estrondoso repetindo ensinos bíblicos por vezes básicos. E isto me faz chegar a duas conclusões. A primeira é que as pessoas têm uma grande necessidade de ouvir a voz de Deus, de preencher o vazio que têm dentro de si (o que é óbvio), por isso o sucesso dA Cabana. A segunda é que a igreja, que deveria (pelo menos deveria) ser o “porta-voz oficial” de Deus, tem tido uma grande dificuldade de apresentar a voz dEle, de uma forma que responda a esses anseios elementares da alma. Se assim não fosse, um livro como esse não seria tido como um transformador de vida, mas como uma bela parábola que nos auxilia a lembrar de coisas importantes. Ouvi numa conversa uma pessoa dizer que achava o Deus da Cabana “tão legal!”, em contraste com o que ela ouvia nas igrejas e mesmo na Bíblia. Penso que temos falhado em mostrar que esse Deus tão legal é o próprio Deus da Bíblia, o nosso Deus. Mas também, temos por vezes falhado em reconhecer para nós mesmos e em nossas igrejas esse Deus!
Este livro expõe ainda uma outra característica deste nosso tempo. Num momento de catarse, Mack resolve todos os seus problemas com Deus e consigo mesmo. Muitas pessoas já disseram que gostariam de “viver na cabana”, se referindo a esta experiência milagrosa e transformadora. Mas corremos o risco de cairmos numa espécie de monasticismo pós-moderno, em que nos fechamos em nós mesmos e em nosso individualismo, e não mais num castelo distante. Seria uma solução muito fácil, ao invés de nos darmos conta que o aprendizado que nos transforma se dá no dia-a-dia, num relacionamento com Deus e também com o nosso próximo. Ficamos como Pedro no monte da transfiguração, que deseja fazer tendas para prolongar aquele momento, mas ao descer teve dificuldades para lidar com a “realidade” e expulsar demônios. Se A Cabana tem seus pontos positivos (e sem dúvida os tem), devemos aproveitá-los ao máximo em nossa vida cotidiana, em nossa relação com aqueles que nos cercam, e não ficar apenas imaginando como e onde seria nossa cabana, e esperar que Deus se materialize em nossa frente e resolva nossos problemas numa experiência mística transcendental.
Tendo dito tudo isso, quero reforçar aqui que este é um livro que deve, sim, ser lido, e seus pontos positivos aproveitados e absorvidos. Mas recomendo a todos que façam, sobretudo, uma leitura crítica desta obra e vejam como ela revela questionamentos tão caros à nossa sociedade, e porque suas respostas a esses questionamentos encontram tão grande aceitação. Pensemos assim nossas próprias respostas a essas perguntas e os desafios que se colocam diante de nós em face de uma sociedade que quer, cada vez mais, viver (e se isolar) dentro de uma cabana.

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