Arquivo para março \29\UTC 2009

Hoje no caminho…

por Raphael

Acredito que tudo merece uma explicação, principalmente o nome do Blog. Por que hoje? Que caminho?

Hoje não é meramente uma indicação de tempo. Hoje é mais que isso. Hoje é um compromisso, uma aliança, uma disposição à continuidade. A história começa quando se pensa em amar hoje e renovar esses votos a cada dia, como se Hoje fosse o derradeiro momento, independente se outro dia vier. É viver esse amor a cada dia. O futuro a nós não pertence, por isso não nos atemos a ele pois “o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mt 6.34) É por isso que para nós o hoje é de extrema importância. O futuro é incerto, o passado imutável, resta-nos o presente. É nele que vivemos.

E isso nos leva ao Caminho. A intenção é mantê-lo, por isso o seguimos com sinceridade e lealdade. Por isso o seguimos hoje. Como nos foi ensinado e como cremos de coração, esse Caminho é Cristo; nEle está a salvação e a beleza. Ele é a salvação e a beleza.

uma tensão hoje

por Eler

Minha visão do cristianismo hoje muda todo dia. Nos útlimos três anos, acho, ela se tornou bem fluida. Acho que foram os três anos em que, mais que nunca, descobri que só posso viver o evangelho no mundo. Com isso, vêm os problemas. Porque sempre disseram que tudo o que tem no mundo é contra Deus, é do diabo, e não presta pra nada. Só que eu tenho que estudar, e não é mais no saudoso Colégio Presbiteriano, de Governador Valadares. Eu tenho amigos, e eles não são só os amigos crentes da UPA. Eu tenho que aprender, e não é a ordem dos livros na escola dominical.

A gente descobre, mais dia, menos dia, que o mundo não é preto-no-branco. A gente até descobre o que significa maniqueísmo, porque sabe o quanto essas simplificações são perigosas.

Antes eu tinha a resposta para tudo. Fumar maconha? Ah, ninguém nunca ia ter coragem nem de me oferecer, porque sabem o que EU SOU! Mitologia grega? Paganismo! Filosofia? Qual a importância dela se já sei que o fim do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”? Evolucionismo? Impossível aceitar que Darwin estivesse certo em uma linha qualquer, se na Bíblia diz que o homem foi criado. Ciência? Um instrumento que só comprova o que a religião já diz. Socialismo? Um sistema autoritário e perseguidor da Igreja. As outras igrejas? Pouco conhecem de bíblia, ou não diriam tanta besteira. Os ateus? Insensíveis amorais (confesso: na época, talvez nem soubesse o que era amoral). A pós-modernidade? O tempo em que o mundo se esqueceu de Deus, e em que as pessoas perderam a referência.

Mas aí descobri: é o tempo em que vivo. Onde vou ser cristão, se não no mundo? Qual o proveito têm as pedras e as plantas na sabedoria dos monges ascetas? Como vou negar tudo aquilo que ajudou a formar minha consciência, que explica o mundo em que devo viver? Parece que a tensão é nova e, por isso, não temos resposta. Talvez não seja.

Em resumo, os apologistas* dão testemunho da tensão em que vivem os cristãos dos primeiros séculos. Ao mesmo tempo que rejeitam o paganismo, têm de enfrentar o fato de que esse paganismo produziu uma cultura valiosa. Ao mesmo tempo que aceitam a verdade que encontram nos filósofos, insistem na superioridade da revelação cristã. Ao mesmo tempo que se negam a adorar ao imperador, e esse mesmo imperador os perseguem continuam orando por ele e admirando a grandeza do Império Romano. As seguintes linhas do ‘Discurso a Diogneto’ descrevem admiravelmente essa tensão:

“Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linguagem nem por seus costumes (…). Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam encontram sua pátria, mas sua pátria não está em nenhum lugar (…). Se encontram na carne, mas não vivem segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos dos céus. Obedecem todas as leis, mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem (Discurso a Diogneto, 5:1-11)”

[In GONZALEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Mártires (vol. 1), p.94.]

Qual a resposta, afinal? A síntese da nossa história, enquanto cristãos, é a forma com que Deus se revelou a nós, plenamente, em seu Filho, Cristo Jesus. Ele se relacionou conosco, enquanto ainda vivíamos para o mundo (e estávamos mortos para Deus).

Se hoje estamos no caminho, é por ele. E não interessa que o caminho seja uma estrada celestial. O caminho é Cristo e o caminho é aqui. Cristianismo autista não serve para nada.


*Apologistas eram os homens que se dedicavam a defender os cristãos, no início da Igreja, em meio a ataques de cidadãos romanos e intelectuais, em tempos de perseguição ou de paz.

A ansiedade e o “natural de Deus”

por Jotapê

Como o blog (pra mim, e para os outros de forma mais efetiva) surgiu do acampamento de carnaval, nada mais justo do que compartilhar aqui um texto que foi compartilhado na primeira das breves (y) devocionais feitas no quarto dos garotos. Esses momentos serão lembrados com certeza por todos aqueles que lá estiveram; em mim, deixaram uma marca que ficará para sempre, de momentos de grande alegria e comunhão, com pessoas que eu acabara de conhecer, mas que afinal também eram do Caminho, e por isso tínhamos (e temos) tudo em comum. A todos, do quarto ou não, meu abraço mais apertado.
O texto em questão é um de meus preferidos, e se encontra em Mateus 6.25-34. Isso porque ele trata, com a doçura das palavras de Jesus, de um tema muito real em nossas vidas, na minha com certeza: a ansiedade. Seja aqueles que estão diante do terrível vestibular, seja aqueles que já cruzaram essa porta de entrada no Olimpo, e descobriram que é apenas o começo, ou os que no meio do caminho param e se perguntam: “Quê que eu to fazendo? Quê que eu vou fazer da vida?”, todo mundo passa por essa situação de ansiedade. Isto é, todos nós ficamos aflitos diante de situações que em geral nem podemos controlar, ou prever seus resultados. E aí entra a maravilhosa resposta de Jesus.
O argumento do Senhor é impressionante em sua lógica, e simplicidade. Primeiramente, ele reordena as nossas prioridades (v.25). Não adianta perdermos tempo e energia e negligenciarmos aquilo que é fundamental; quando olharmos para trás, veremos que desperdiçamos muito de nossa vida. O Senhor também fala da inutilidade de nos preocuparmos com aquilo que foge ao nosso controle (27); não faremos o tempo correr mais rápido nem mais devagar, nem mudaremos o mundo com a nossa ansiedade.
Mas de tudo, o exemplo usado por Jesus é o que mais me fascina: é um convite a admirar a criação de Deus (26, 28-9). Toda a criação é um deslumbrante tratado sobre o cuidado de Deus, e está sempre à nossa disposição, para que aprendamos com ela. Pare! Olhe um pouco à sua volta, e veja o quanto Deus cuida de você, muito mais do que das aves… É impressionante como em nosso mundo gospel, as pessoas clamam cada vez mais pelo “sobrenatural de Deus” (seja lá o que isso for). Esperam grandes acontecimentos, que o céu se abra num grande evento pirotécnico etc. Mas cada vez mais me fascina, e me basta, contemplar o natural de Deus, como o próprio Senhor nos orientou tantas vezes. Os exemplos que Cristo utilizou para explicar sua mensagem e vontade eram sempre de coisas naturais, de nosso cotidiano. O mundo que ele criou está cheio da sabedoria divina, mas muitas vezes não percebemos. Estamos cada vez mais desatentos à voz de Deus, que quer nos falar a cada dia e em todo lugar; por isso, nos tornamos “homens de pequena fé” (30).
Jesus nos mostra que nos inquietarmos com tantas e pequenas coisas é desconhecer a Deus, porque ele sabe das nossas necessidades (31-2). Basta colocarmos tudo diante Dele. Assim, revendo nossas prioridades, e buscando o mais importante primeiro (33), teremos a serenidade de viver um dia de cada vez (34), sem tropeçarmos em nossos passos. Mantendo atento o nosso olhar atento ao “natural de Deus”, descansaremos sempre em seu cuidado.
Assim seja.

Início da caminhada…

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